Evolução da alma, espiritismo e literatura

Acredito que esse será o meu primeiro post sobre religião. Não escrevi sobre este tema antes não por vergonha, mas sim por princípio. Não gosto de sair por aí doutrinando as pessoas. Cada um acredita e deposita sua fé naquilo que lhe convém e lhe acalma a alma.

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Porém, nos últimos tempos, eu tenho me sentido impulsionada por inspiração divina a estudar e adentrar cada vez mais na doutrina espírita. Para os que não sabem, cresci no berço de uma família católica, mas nasci médium. Ligada ao espiritismo desde muito cedo, durante muito tempo reneguei essa minha missão em terra e também relutei contra os fatos, porém, como dizem, pelo amor ou pela dor aprenderemos.

Há cerca de um mês, assisti ao belíssimo filme Cloud Atlas que trata com extrema maestria o tema reencarnação e evolução espiritual. Esse filme me levou a conhecer o livro “Eustáquio – Quinze Séculos de uma Trajetória”. (Por sinal, recomendo muito a leitura desta obra).

Como não acredito no acaso, mas sim no destino e nos sopros de orientação espiritual que nossos mentores nos dão, esse livro chegou em momento propício à minha vida; tocou minha alma como nenhuma outra obra. Nela, o autor espiritual Caibar Schutel relata a trajetória do espírito Eustáquio em 17 encarnações no plano terreno. Mostrando de forma detalhada o caminho trilhado pelo espírito na busca pela evolução e resgate espiritual.

Por isso resolvi colocar algumas notas de reflexão que este livro me trouxe a mente ao coração.

ALGUMAS CONCLUSÕES

  • De acordo com O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, 2ª parte, o Espírito Eustáquio, biografado em 17 vidas, ainda terá muitíssimas outras vidas para prosseguir sua evolução até atingir a perfeição, mas em vidas cada vez mais cheias de felicidade e paz, não necessariamente neste mundo;
  • Todos passamos por numerosas encarnações para a nossa evolução moral e intelectual. A inteligência desenvolve-se sempre, mas a moral pode ficar estacionada em uma ou mais vidas;
  • Podemos encarnar em corpo masculino ou feminino, em raça, país e condição social diversos;
  • Teremos que resgatar todos os débitos do passado, reconciliando com os inimigos;
  • As leis divinas coloca-nos em relação com eles (os desafetos) em ocasiões aparentemente casuais, mesmo após séculos do início da inimizade;
  • O caminho para a evolução espiritual é o que Jesus e outros grandes missionários ensinaram: desapego aos bens terrenos; amor a Deus e amor ao próximo, levando à prática da caridade moral e material com devotamento e abnegação;
  • Deus orienta o homem para o bom caminho através de ensinamentos de sábios e bons missionários encarnados em várias regiões e em épocas diversas (Jesus, Buda, Confúcio, etc), por meio de amorosos conselhos dados por nosso próximo e através das inspirações dos espíritos protetores. Quando o homem não atende a esses convites ao bem, grandes sofrimentos o levam a ser mais humilde, piedoso, crente em Deus e consciente da responsabilidade que tem em cada ação praticada.

Para os que se interessaram pelo tema seguem algumas notas que o autor coloca no livro à luz dos tipos de reencarnações de acordo com as necessidades espirituais evolutivas de cada alma.

1ª- Reencarnação alternativa: é um apoio ao espírito endividado para se desligar de laços do passado. Realizada em local diverso das passadas existências. Nela, o reencarnante não convive com conhecidos de outras vidas. Tem mais expiações do que provas.

2ª- Reencarnação preparatória: tem um pouco mais de expiações do que de provas. Prepara o espírito para as reencarnações-chaves. O fracasso nessa reencarnação o sujeita a outra reencarnação semelhante, ou até à reencarnação alternativa.

3ª- Reencarnação-chave: destina-se aos maiores e mais importantes resgates que se tenha a enfrentar. Tem mais provas que expiações. É realizada nos locais onde o espírito cometeu os erros a resgatar, na convivência de pessoas a quem prejudicou.

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Os seus erros não definem quem você é, mas eles te ensinam

Às vezes, eu mesma me surpreendo com a quantidade de coisas que eu posso estragar em um curto espaço de tempo.

Ainda no outro dia, eu esqueci  do aniversário da minha amiga mais antiga são mais de 10 anos de amizade e mesmo assim eu consegui me esquecer de felicitar ela.

Menos de uma semana antes desta infração, eu percebi que eu tinha, mais uma vez, sem intenção, errado. Tinha sido grosseira com alguém que eu respeito muito por conta de um contratempo de e-mail que me fez parecer uma idiota completa.

Há uns três meses ocorreu uma falha de comunicação em que um parente teve que ser hospedado em um hotel, pois chegou uma semana antes do esperado em minha casa.erro

Esses são pequenos erros e falhas que cometemosao longo dos nossos dias. E que podem ser muito bem compreendidos como omissões nossas. Mas  quando uma série deles acontece no nosso dia a dia dá uma vontade de querer jogar a toalha. Pequenos erros como estes se somam, correndo para o outro como dominós, fazendo-me sentir como um amadora da vida.

Será que só eu me sinto assim?!?!

Nós temos uma semana perfeita até que uma dessas pequenas falhas acontecem e fazem a gente perceber como a vida é perfeitamente imperfeita.

Além disso, estes erros são essenciais para o nosso crescimento.Muitas vezes eu desaponto aqueles que eu amo, e lamentando coisas estúpidas que eu digo. Eu gostaria que não fosse assim, mas não importa o quanto eu tente, nós não temos controle sobre a vida.

Não me interpretem mal, este texto não é um pedido de piedade. Não estou resignada com meus erros; Eu acredito que posso crescer com eles.

Nós todos ficamos aquém, todos nós traímos nossas consciências e deixamos para baixo aqueles que mais nos importamos. Como as pessoas também nos desapontam com pequenos erros.

Nossas lutas não nos definem. Mas eles podem nos ajudar a crescer.

Quando eu tenho uma semana ou mesmo um mês em que eu cometo muitos erros eu me lembro de algumas coisas:

Falhar significa que eu ainda estou viva.

A falha significa que há espaço para crescer. Eu não sei quanto a vocês, mas eu odeio o sentimento de estar estagnada. E eu amo a alegria de aprender uma nova habilidade ou crescer em algo.

Falhar significa que eu sou humana. Nós não gostamos de falar muito sobre nossos fracassos, mas eu acredito que é a única coisa que temos em comum com todos.

A verdade é que com cada lacuna, podemos aprender alguma coisa. Podemos crescer. Podemos tornar melhores com cada ação que temos.

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Sou gordinha sim, e daí?

Aceitação é o segredo da autoestima

A minha vida toda eu escutava do mundo ao meu redor que deveria emagrecer e isso sempre foi cansativo. Aliás, acho que meu peso sempre incomodou mais os outros do que eu.

Já fiz tantas dietas e tantas loucuras para emagrecer que até poderia criar um site de dicas do que não fazer para emagrecer ou até contar alguns causos da minha história de vida com base nas dietas.

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Sim eu estou de dieta há quase seis meses e quatro que resolvi encarar a dieta com seriedade. E para quem interessa o meu processo de emagrecimento de agora é muito mais por questões de saúde do que estéticos.  E chega de falar de emagrecer que esse não é objetivo deste texto. Quero falar sobre o processo de autoaceitação.

Graças à luta de muitas pessoas que não se encaixam dentro dos padrões pré-estabelecidos de beleza, muita coisa tem mudado. Muitas empresas e campanhas publicitárias têm valorizado as diferenças e investido nos segmentos dos excluídos.

E quando digo excluídos eu estou falando dos gordos, dos muito magros, dos baixinhos, dos alto demais, das mulheres de cabelo encaracolados, dos negros, dos homossexuais e tantos outros que vivem a margem da sociedade.

O que eu aprendi nesses meus 20 e tantos anos de vida é que não importa quantas mudanças você faça com seu exterior se você não conseguir se ver com amor e admiração. Pode ser clichê, mas autoestima é o segredo do bem estar.

Faça o exercício de se olhar no espelho e dizer o quanto é bonita (o) pelo menos duas vezes por dia. Cuide-se, tenha atitudes que façam você se orgulhar, admire suas escolhas, tenha um trabalho que goste, conviva com pessoas que te elevem, conheça lugares diferentes, nunca diga não sem pensar nas possibilidades, reavalie suas atitudes.

A autoaceitação é um processo longo e árduo sempre haverá dias que ficaremos inseguros com nossa aparência ou com nossas ações, mas isso não pode ser desculpa para mudar de caminho.

Estou nessa batalha de conhecimento e aceitação há uns dois anos e a cada dia me orgulho da minha evolução, por isso não se sinta excluído ou fique esperando que alguém te abrace. Abrace a si mesmo e se ame cada vez mais.

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Por que precisamos de Arte?

“As melhores e mais belas coisas do mundo não podem ser vistas nem tocadas – devem ser sentidas com o coração” – Helen Keller.

Eu estava cuidando da minha vida. Era uma manhã comum. Então tinha esse vídeo com essa música . E tudo mudou.

Eu já ouvi essa música antes, ouvi estas palavras antes, mesmo visto os artistas cantá-la ao vivo. Mas havia algo diferente, acho que a forma que cantaram a canção ou talvez o momento que esteja vivendo, fez com que a canção me atingi-se.

A música me pegou de surpresa e quase me levou às lágrimas. Eu não estava esperando isso, o que é um problema. Temos a tendência de nos emocionar com as coisas belas. E arte tem esse efeito sobre nós.

Eu me fiz à pergunta a arte é essencial?

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Recentemente, em um episódio da série The Walking Dead, um personagem encontra uma pintura de Caravaggio, inestimável, abandonada na rua, como se fosse lixo. O sobrevivente do apocalipse zumbi lamenta dizendo que a arte não tem mais lugar. Eu sou obrigada a discordar dessa afirmação, mesmo que sejam tempos apocalípticos.  E uso como argumento uma frase que li em algum lugar, mas não lembro o autor – “a arte não é uma questão de sobrevivência. É sobre a transcendência. Sendo mais do que animais, elevando-se acima”.

Existe poder na arte, algo que capta a nossa atenção e nos faz parar em nossos caminhos. É por isso que eu amo música, viagens e longas caminhadas em outubro quando as flores da primavera desabrocham.

A arte nos faz lembrar de nossa humanidade!

Arte, ao que parece, é um lembrete de quem realmente somos, ou talvez o que devemos ser. E a vida, eu acho, é o que encontramos quando estamos serenos e permitimos que a beleza nos envolva. Quando abraçamos o que está bem na frente de nós e acredito que vale a pena a nossa atenção. A arte está no nosso dia em pequenos detalhes. Mas, para fazer isso, a fim de encontrar a vida que todos nós queremos, temos de ser parados e devemos ter nossos objetivos mesquinhos frustrados, só assim conseguiremos achar um caminho mais nobre e artístico para nossa existência.

Há algo inspirador sobre arte, algo revigorante em uma peça de música que tão perfeitamente mata você. Todos nós queremos ser encontrados nesses momentos que nos roubam longe do urgente e nos permitem ficar perdido na beleza da arte e nas sensações que nos provoca.

Esses momentos, no entanto, não acontecem por acaso. Temos de convidá-los. Nós temos que dar espaço para eles, mesmo que seja apenas por três minutos enquanto assistia a um vídeo no YouTube. No final, eles valem qualquer sacrifício que temos que fazer.

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Por que perseguir a sua paixão não é suficiente (e que você deve fazer em vez disso)

FAÇA-A-DIFERENÇAMuita gente vai dizer que tudo que é preciso para ter sucesso na vida é buscar a sua paixão. Mas esquecem de dizer que essa máxima nem sempre é verdadeira.

Existem muitas pessoas lá fora que estão tentando fazer as coisas que eles amam e não são, necessariamente, que bem sucedidos. Então, em que elas estão falhando? A verdade é que a paixão é apenas uma das três características que você precisa para encontrar sua vocação.

Quando vamos começar alguma coisa temos que nos responder três questões importantes: você quer fazer algo que mude a vida das pessoas?  Quer ganhar a vida fazendo o que você ama? ou quer lançar um negócio de sucesso?

Além destas questões iniciais também é importante responder essas:

O que as pessoas querem?

No que eu sou bom?

O que eu amo fazer?

Onde estas três perguntas convergem é onde você vai encontrar o seu talento. Como Frederick Buechner escreveu, sua vocação está na intersecção da necessidade profunda do mundo e sua paixão.

Em outras palavras, você tem que fazer algo que é interessante para você e para outras pessoas. E, claro, você tem que ser bom naquilo que faz. Estas questões abrangem as seguintes áreas:

Demanda: o que o mundo precisa ou o que o mercado quer.

Competência:  que habilidade ou capacidade você tem a oferecer para atender a essa demanda.

Paixão: o prazer que você tem a partir do trabalho que você faz.

Se você tiver apenas um ou dois deles, mas não todos os três, você não vai fazer isso. Competência sem paixão é trabalho pesado. E a paixão sem demanda é um hobby. Você tem que ter todos os três para fazer uma contribuição significativa.

Mas, claro, isso não quer dizer que não há valor em fazer as coisas que você ama. Tenho muitos passatempos que eu gosto. Eu só não espero que as pessoas me pagam por eles.

E você também não deveria.

Se você deseja obter o máximo de satisfação de seu trabalho e fazer dele uma contribuição mais significativa, você tem que ir além  da paixão. Você tem que considerar o que o seu trabalho / ações representam para as outras pessoas.

Isso não é uma coisa tão ruim, na verdade. Assegurar o direito de partilhar o seu sonho significa que você valoriza o tempo das pessoas. Isso significa que você realmente se preocupa com alguém diferente de si mesmo. Mas o que isso se parece, na prática?

Aqui estão três passos simples que você pode tomar hoje:

Faça boas perguntas. De que outra forma você vai descobrir o que as pessoas querem? Você descobre a demanda quando você descobrir o os outros precisam.

Compartilhe o que você sabe. A melhor maneira de descobrir o que você é bom e qual o valor que você pode oferecer ao mundo é compartilhar o que parece natural e óbvio para você e ver a reação dos outros.

Preste atenção ao que você fica animado. Veja como o que você compartilha conecta com outras pessoas e como isso afeta você.  Tome nota do que te estimula e encontre maneiras de fazer mais dessas coisas.

Não, paixão não é suficiente. O mundo precisa de mais do paixão que para você simplesmente fazer o que gosta. Ele precisa que você faça diferença. E cada uma dessas etapas irá ajudá-lo a descobrir o que as pessoas querem, como você pode agregar valor, e que é preciso para fazer esse trabalho tanto gratificante e satisfatória.

Então é melhor você começar.

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Porque todos nós precisamos de uma jornada

A coragem vem por meio da conquista, mas também pela tentativa.

Comecei a minha vida adulta como uma viajante; em muitos aspectos, a viagem me fez quem eu sou hoje. Acho que se todos nós pudéssemos aprender a ver a nossa vida mais como uma viagem não um destino. Seria melhor para nossa evolução.

Para mim, tudo começou com as viagens para visitar meus pais que mudaram para outra cidade enquanto estava na faculdade. Em seguida, um semestre no Canadá. Depois, um par de verões em Extrema. Ai veio as viagens curtas a trabalho, mas que sempre levava a algum lugar novo.

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Porque na partida, eu me encontro. No percurso, aprendo algo sobre a minha identidade.

Três lições que as viagens nos ensinam

Jornadas nos definem. Elas são marcadoras importantes de nossas vidas. E elas nos lembram que somos todos viajantes de algum tipo.

Jornadas nos revelam nossas imperfeições. Elas nos mostram que não estamos sozinhos neste mundo. Que existem outros andarilhos lá fora, em busca da verdade e significado neste enorme, confuso universo.

Jornadas nos ensinam sobre a vida. Conhecer lugares novos é um forma de conhecer a si mesmo e a vida. Depois de aprender isso, nunca paramos de viajar (mesmo que nunca saia de casa).

A jornada é o que você faz

É um processo de saída e chegada, de perder-se e encontrar-se novamente. E se estes são os nossos únicos critérios, qualquer coisa pode ser uma viagem, desde que a evolução seja o objetivo.

De vez em quando, eu tenho que me lembrar que, apesar de uma hipoteca e emprego estável e qualquer outra aparência de estabilidade, eu ainda sou uma ‘andarilha’. Ainda uma viajante em busca de respostas, ainda um peregrina em uma terra estrangeira.

E de vez em quando, eu tenho que fazer uma viagem para me lembrar disso. Para encontrar. Para perder. Para se tornar. O próximo destino de parada ainda está sendo escolhido.

A lição de todas as viagens é esta: A vida não é estável, e nós não estamos no controle. Tudo o que podemos fazer é desfrutar do passeio. Então, qual seria a melhor forma de viver? aproveite os momentos e as oportunidades ao máximo.

A maior utopia da vida é pensarmos que estamos no controle.

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Daqui a vinte anos você estará mais decepcionado pelas coisas que você não fez do que pelas que fez. Então jogue fora as amarras. Navegue para longe do porto seguro. Agarre o vento em suas velas. Explore. Sonhe. Descubra.

Quando foi a última vez que você fez uma viagem? O que você aprendeu? Compartilhe nos comentários.

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VIAGEM A TERRA DE QUEM?

A noite nublada faz com que me sinta melhor. As nuvens baixas, escuras, parecem dar boas vindas à vida. A lua nova se esconde por detrás delas como um filhote medroso atrás de sua mãe. Sinto o cheiro noturno da cidade, doce, suave, passando por meus cabelos ao vento, me trazendo alento, alegria.

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Faz muito tempo que eu não venho aqui, as coisas mudaram muito, as luzes da cidade me trouxeram aqui. Diferente da última vez, a cidade agora reflete tecnologia, seus prédios estão cada vez mais altos, imponentes, mas ainda há casas pequenas. Passo devagar, observando as janelas, algumas fechadas, outras semi-abertas, isto não é nem nunca foi um problema para mim. Uma delas me chama a atenção, vejo crianças pequenas, cinco, seis anos, dormindo. Recuo e fecho as janelas, não quero que nada aconteça com as crianças. A altura é muito grande.

Sigo em frente. Na edificação ao lado vejo uma janela aberta com um jovem casal dormindo abraçados. Afasto-me rapidamente, triste, me faz lembrar meus pais, sempre que penso neles me entristeço. Continuo indo em frente, cada vez mais no interior da cidade, com ruídos altos, ar poluído, vegetação escassa, moradas mais altas. Resolvo ficar em cima no terraço de um edifício.

De cima observo um grupo de jovens se divertindo no salão de festas, parece um aniversário. Desço e me junto a eles. Todos têm a sensação que me conhecem, faz parte de mim, meu dom, minha mágica.

Como, bebo, danço, me divirto, afinal sou apenas um jovem como dezenas de outros. Rapidamente alguns se aproximam, se enturmam. São duas moças, Lúcia e Carla, e um rapaz, Beto. Uma delas, Lúcia, com um piercing nos lábios, me abraça, me apresenta a mais alguns amigos. Resolvo ficar.

A música alta não me incomoda, as luzes causando um efeito estroboscópico no globo pendurado no teto causa uma sensação de euforia, de alegria. Será o álcool? Creio que não, nunca teve efeito em mim. O som de muita gente falando ao mesmo tempo, o barulho da música. Loucura, maravilha.

É alta madrugada, convido meus três novos amigos para irmos à outro lugar, conhecer a minha casa, e eles topam. Saímos e vamos em direção ao prédio vizinho onde eu estava. Subimos até o terraço, as portas sempre se abrem para mim, basta eu me aproximar. Conversamos mais um pouco e então as nuvens cinzentas começam a descer, formam-se pequenos raios que atravessam a nuvem cinzenta em diversos pontos. Eu a chamo.

Ela então começa a surgir magnífica como sempre, ovalada em sua parte interior, emitindo uma luz azulada contra o céu carregado de nuvens daquela noite. É a minha carona, digo aos meus novos amigos e minha alegria os contagia. Ela vai descendo aos poucos acompanhada pelas nuvens, então, acima de nós uma abertura se faz. Uma luz surge de dentro da nave, branca, densa e vem em direção ao telhado onde nos encontramos.

Vejo que meus três novos amigos estão surpresos, paralisados, assustados, mas eu os convido novamente a conhecer minha casa, sorrio. Meu sorriso e minha calma os tranqüiliza um pouco e então Beto faz um sinal positivo para as moças e eles concordam.

O terraço do edifício então se ilumina, meus três novos amigos precisam cerrar os olhos devido à intensidade da luz, eu os chamo e vamos em direção a ela. Flutuamos, levitamos do terraço até a porta aberta da nave e penetramos em seu interior frio, mas de alguma forma, prazeroso. A porta se fecha, a música, o cheiro da cidade, sua poluição, barulho, tudo fica para trás. Eles estão quietos, tensos.

Algum tempo se passa, o silêncio serve apenas de combustível para seus temores. Eles agora parecem assustados, Carla chora em um canto enquanto chama pela mãe. Seus olhos cheios de rimel escorrido pelas bochechas dão à garota um ar engraçado. Eu me pergunto: Será que algum dia tive mesmo família?

Beto parece extasiado com a iluminação, observa o ambiente enquanto flutua. Falta de gravidade, eu digo. Ele sorri o tempo todo, mas não está alegre, ao contrário está preocupado, rói as unhas e me observa com cuidado. Ele aparenta ser mais forte que eu, mas parece ser um garoto de paz.

Lúcia está estranhamente calma, sentada em um canto. Será que já passeei com ela antes? Acho que não, afinal a última vez que estive onde os apanhei ela não era nascida. Talvez nem a mãe dela fosse. A viagem é rápida, e logo chegamos em  casa.

Eu os convido a sair da nossa carona, o feixe de luz nos desce lentamente. A última vez que eu trouxe visitantes para casa, aqui era um ambiente lindo, mas hoje…

O céu aqui também está cinzento, nuvens avermelhadas causadas pela poluição que as mineradoras, siderúrgicas e demais extratoras dos invasores, que as implantaram aqui, deixaram. O mar que outrora era belo e cheio de vida hoje também demonstra tristeza e morte. Vêem-se muitas plataformas, extratoras espalhadas por todo o lugar.

Descemos pelo feixe de luz até tocar o solo da cidade abandonada. Beto é o mais curioso, está muito excitado. No momento estamos em um ponto alto de minha cidade, num lugar onde os invasores construíram templos aos seus deuses. É uma velha praça de onde saem diversos lances de escadas, que começo a descer. Carla quer saber qual é o nome da cidade, em que lugar está.

– Nunca, respondo sorrindo para ela. Olhem para o céu.

Os três ficam parados olhando o céu noturno, e para o que mais chama a atenção, as três luas no firmamento.

Continuamos a descer as escadarias até chegar a um patamar. Ao fundo vê-se uma construção. Carla anda em sua direção e nós a acompanhamos, ela quase corre. O local é um templo enorme construído pelos exploradores. As portas são gigantescas, tem cinco vezes a minha altura. Entramos. As luzes das luas iluminam parcamente o local, Carla tropeça e cai de joelhos, eu a levanto, não quero que se machuque. Com um gesto ilumino todo templo. Ilumino toda a cidade.

Sinto a presença de meus irmãos saindo para as ruas. Sabem agora que voltei. Beto e Lúcia querem saber detalhes dos objetos, das imagens, seu significado, mas eu silencio. Não posso responder o que não sei.

– É aqui que eles agradeciam aos seus deuses, é só o que respondo.

Saímos do lugar, nos dirigimos à escadaria e continuamos nossa caminhada, agora breve até chegar às ruas, edificações. Pessoas nos observam de longe. Meu povo ficou arredio com os últimos visitantes.

– Que lugar é esse, pergunta Beto. Onde estamos?

Olho em seus olhos e vejo que chegou o momento de lhes mostrar minha casa, meu mundo.

– Eu já respondi a essa pergunta, falo a ele. Vou lhes contar o que aconteceu aqui.

“Até há algum tempo o meu mundo tinha muitas pessoas, de todos os tipos, jeitos, formatos e tamanhos. Alguns alegres, alguns tristes, mas eram livres para ir e vir. Então, chegaram até nós exploradores, visitantes, vindos de lugares que vocês nunca ouviram falar e nem podem imaginar. Trouxeram o progresso, indústrias… tristezas.

Aí foi o meu erro. Deveria ter me mostrado logo que chegaram, deveria ter-lhes dito que aqui era a minha casa e que eu protegeria meus irmãos. Todos que habitam meu mundo são meus irmãos. Mas me calei. Retrai-me.

Os visitantes tomaram conta e muitos dos meus amigos se foram, para nunca mais voltar. Outros continuaram vivendo aqui, na gigantesca cidade que se formou, mas ficaram ressentidos por eu não ter ajudado, não ter impedido que suas terras, suas casas, fossem tomadas, fossem destruídas.

Então um dia eu “acordei” e resolvi que eles iriam embora, procurei os seus líderes e pedi que se fossem. Eles riram, me expulsaram do lugar de onde governavam minha casa.

– Vá para casa garoto tolo – disseram eles. Aqui agora é nosso e ficaremos para sempre.

Saí cabisbaixo, mas decidido. Procurei alguns amigos e eles já não estavam aqui. Compreendi o que tinha de ser feito, e seria de imediato. Continuei procurando alguém especial, que estava comigo há muito tempo nos bons e maus momentos, até que a encontrei. Sininho. Ela e seu povo se escondiam nos subterrâneos da cidade. Ela se aproximou e então fez algo que nunca havia feito antes. Deu-me um beijo. Senti uma onda de energia que há muito, muito tempo não sentia correndo pelo meu corpo. Voltei a ser quem eu era em milésimos de segundos.

Então a terra tremeu. Medo, gritos, enquanto observavam minha nave rasgando o solo e ganhando o céu. Ela é parte de mim assim como eu sou parte dela. Acordamos juntos.

Os invasores estavam paralisados, acreditavam ser o poder maior e então vêm o quanto são pequenos. Ainda tentaram me deter, usaram armas contra mim, contra os meus irmãos, pensaram que poderiam nos intimidar, nos massacrar, nos destruir. Mas a sua pouca tecnologia não era páreo para a minha, simplesmente nada que eles tinham funcionou.

Então permiti que eles se fossem. A vida, qualquer que seja ela, é importante. Comparados à sua civilização, eles seriam deuses, descobrindo planetas, conhecendo civilizações, mas comparados à minha são apenas crianças travessas, fazendo arte em meu quintal”. Respondo a Beto.

– Aqui é minha casa, falo para Lúcia.

O dia começa a clarear e mais pessoas vêm conhecer os recém chegados. Uma linda moça se aproxima, é a minha irmã Sininho, seus grandes olhos azuis que em épocas recentes espelhavam tristeza, mudaram. A alegria em seu sorriso é constante. Aproxima-se de nós, me abraça. Ela sempre ficou bem de vestido verde curto. Caminha em direção aos meus novos amigos.

Beto lhe dá as mãos e dançam felizes pelo ar. Vejo que gostou dela, fico feliz.

– Qual o nome de sua casa? Pergunta-me com curiosidade Lúcia.

– Nunca. Respondo outra vez.

Minha nave agora paira ao largo da cidade, por sobre o mar, brilhante, gigantesca, viva. Emite uma luz tênue, limpando os céus, formando, trazendo de volta a vida ao mar e a terra. Trazendo a alegria aos meus irmãos. Sorrio. Pego nas mãos de Carla e Lúcia, flutuo.

– Porque nos trouxe para cá, para esse lugar? Falou Carla.

-Vocês estavam perdidos, e eu os encontrei. Precisava de vocês, assim como sei que precisam de mim.

Observo Lúcia e Carla flutuarem sós, ainda desengonçadas, desequilibradas. Meus irmãos aos poucos voltam aos seus afazeres. Sinto que estão felizes, sinto que se sentem seguros. Mostro a elas a cidade vista de cima, o mar.

Descemos até a praia. Elas tiram suas botas e caminham descalças pela areia até onde Beto e Sininho estavam sentados observando o mar.

– Diz seu nome para mim, pediu Lúcia.

Minha irmã me olha e balança suavemente a cabeça dizendo sim. Respiro fundo, olho ao meu redor e respondo.

– Sou… Peter Pan.

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